OPINIÃO
MANAUS – Os golpistas bolsonaristas são também negacionistas. Negam qualquer malfeito que fazem. Fizeram isso desde o início. Não enxergam crimes nos seus próprios crimes. Pior: defendem suas teses golpistas com o discurso de defesa das liberdades individuais e coletivas, como se democratas fossem.
Em coro, neste momento, tentam descredibilizar a denúncia a presentada na noite desta terça-feira (18) pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, que aponta Bolsonaro e seu ex-candidato a vice-presidente em 2022, Walter Braga Netto, como os líderes do plano golpista que planejou matar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, e culminou com os atos de 8 de janeiro de 2023.
O senador Flávio Bolsonaro (PL), filho mais velho do ex-presidente, gravou um vídeo em que diz que a denúncia contra o pai é uma fantasia. “O que está acontecendo é uma injustiça, uma perseguição política contra Bolsonaro. Quem passa o olho na denúncia tem certeza: ela não para de pé.”
Esse é o tom. Eles querem provas de que houve a tentativa de golpe. Talvez imaginem que as provas seriam as armas utilizadas em um levante em Brasília para destronar Lula da cadeira presidencial. Ora, a tentativa de golpe é o planejamento, não o golpe em si. Quando há o golpe e ele é bem-sucedido não há o que punir, porque os golpistas assumem o poder e aniquilam qualquer um que os conteste.
A denúncia de Paulo Gonet faz uma cronologia. O golpe foi arquitetado desde 2021, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro inicia um discurso de ruptura institucional e culmina com os fatos desencadeados no dia 8 de janeiro de 2023, de acordo com o procurador-geral da República.
“Os delitos descritos não são de ocorrência instantânea, mas se desenrolam em cadeia de acontecimentos, alguns com mais marcante visibilidade do que outros, sempre articulados ao mesmo objetivo – o de a organização, tendo à frente o então presidente da República Jair Bolsonaro, não deixar o Poder, ou a ele retornar, pela força, ameaçada ou exercida, contrariando o resultado apurado da vontade popular nas urnas”, diz trecho da denúncia.
O procurador-geral diz que o recrudescimento do discurso golpista de Bolsonaro começa no momento em que presidente Lula recupera os direitos políticos. “Essa escalada ganhou impulso mais notável quando Luiz Inácio Lula da Silva, visto como o mais forte contendor na disputa eleitoral de 2022, tornou-se elegível, em virtude da anulação de condenações criminais”.
Não foram poucas vezes que Bolsonaro atacou o sistema eleitoral brasileiro, as instituições e os adversários, numa clara demonstração de que não aceitaria a derrota nas urnas. Em um dos atos de 7 de Setembro, diante de uma multidão, o então presidente da República afirmou que não mais cumpriria decisões judiciais que o contrariasse.
Em reunião com seus ministros, gravada e revelada posteriormente, Bolsonaro diz que precisavam agir antes da eleição para evitar o caos. A delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, mostra, inclusive, que houve um plano para matar o presidente eleito, Lula, seu vice e o ministro do STF Alexandre de Moraes.
Como o Exército não quis aderir ao plano golpista, os membros da organização criminosa colocaram em curso o que seria sua última cartada: o ato de 8 de janeiro de 2023, em que os manifestantes destruíram parte das sedes dos Três Poderes.
Bolsonaro não esperou o desfecho do plano golpista. Depois que a cúpula do Exército se recusou a aderir, o presidente deixou a cadeira do Palácio do Planalto e fugiu para os Estados Unidos. Mas a última cartada foi dada, com Bolsonaro assistindo à distância.
Não houve golpe, felizmente, mas a tentativa de golpe precisa ser severamente punida, com os rigores da lei.